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A Pedagogia do Oprimido e a Facilitação

Ravi Resck 1 de agosto de 2021

A pedagogia do oprimido foi apresentada por Paulo Freire em um livro do mesmo título em 1968 quando o autor se encontrava exilado no Chile após ter alfabetizado mais de 5 milhões de pessoas durante a ditadura brasileira.

A sua idéia de uma educação libertadora inspirou educadores ao redor de todo o mundo e ainda é a base de muitas abordagens modernas. A metodologia de Freire foi popularizada em grande peso pelas autoras Anne Hope e Sally Timmel em uma série de livros chamada “Training For Tansformation” (treinamento para a transformação).

A pedagogia do oprimido surge em um contexto desesperador em que um homem se vê obrigado a construir uma ponte que poderia interromper o eterno ciclo vicioso do oprimido que sonha em se tornar um opressor.

Dentro do contexto da facilitação, a pedagogia do oprimido estabelece a base do processo voltado para reestabelecer um diálogo entre o educador e os estudantes. Em Dragon Dreaming utilizamos o recurso das “Perguntas Geradoras” como o pilar da construção de um sonho coletivo.

Sendo assim, dentro de um contexto de facilitação, focarei este artigo em torno dos “Temas Geradores” que fundamentam o trabalho do facilitador que pretende provocar a transformação da sociedade através do seu trabalho.

Ao facilitar um processo de tranformação, podemos utilizar os princípios da pedagogia libertadora de Paulo Freire para nortear a nossa prática. Segue abaixo uma pequena apresentação desses principíos.

O objetivo da educação é a transformação radical

Por transformação radical, queremos dizer que, para trazer mudanças e transformar nossas comunidades, precisamos entender a causa de nossos problemas a partir de suas raízes, de diferentes ângulos. Pressupomos a nossa compreensão sobre o fato de que estamos prestes a transformar nossas próprias vidas, comunidade, meio ambiente e toda a sociedade.

Assim, no meio de desafios diários, a educação é baseada na esperança, que é possível mudar a vida para melhor. “Radical” significa ir às raízes do problema. Trata-se de desenterrar os valores subjacentes aos sofrimentos desnecessários influenciados pela moderna civilização industrial ocidental.

Esta civilização agora influencia a maior parte do resto do mundo. Esses valores dominantes incluem a ganância e o controle de bens materiais, poder e coisas em geral.

Temas geradores relevantes: Empoderamento

Como podemos garantir que as questões que os facilitadores estão envolvendo as comunidades são relevantes? É importante que a educação seja importante para as comunidades que serve.

Assim, é crucial partir de um assunto que está afetando diretamente a comunidade. É quando se aprofunda uma questão em que a comunidade tem fortes sentimentos sobre: esperança, medo, preocupação, raiva, alegria; Assim, a tristeza será trazida à superfície.

Paulo Freire chama as questões que geram essa energia natural como “temas geradores”. Sentimentos reprimidos contribuem para uma sensação de impotência e apatia, mas se os explorarmos, as pessoas podem descobrir uma nova vida para si e para os outros.

Canalizar essa energia para o plano estratégico é outro desafio neste trabalho. Além disso, começar com uma questão que preocupa a comunidade gera mais discussão, já que esta é uma questão da qual a comunidade é apaixonada, pois afeta diretamente o diálogo.

O Diálogo

Tem sido um fenômeno que quando as comunidades enfrentam desafios, uma lista de “especialistas” aparece do nada. A suposição é que os especialistas podem resolver todos os problemas enfrentados pelas comunidades.

Durante anos, as percepções e a prática da metodologia da educação concentraram-se na transmissão de informação e conhecimento para uma tabula rasa, ou seja, de quem sabe e do outro que não sabe.

Paulo Freire refere-se a este processo como educação bancária, pois o professor faz depósitos regulares na mente vazia do aluno. Precisamos de diálogo para extrair insights de todos os que estão preocupados enquanto procuramos soluções.

Códigos que definem problemas

A este respeito, uma vez que encontramos temas geradores, precisamos de uma forma concreta de apresentar o problema. Quando fazemos a introdução de um processo de facilitação, pedimos aos participantes que perguntem uns aos outros como estão se sentindo.

Sentimentos são emoções expressas em uma forma de raiva, alegria, frustração, choro e assim por diante. O código deve capturar o problema conforme apresentado pela comunidade. Ou melhor, em outras palavras, é importante que os códigos capturem os sentimentos da comunidade.

Se a comunidade estiver infeliz, preocupada, etc., o código deve revelá-la. Assim, um código é uma apresentação concreta de um problema familiar, sobre o qual o grupo tem fortes sentimentos.

Um exemplo de código ou problema de posicionamento de material é um cartaz, peça, fotografias, slides, músicas, um ditado e jogos que simulam o problema. Um código é diferente de outros recursos visuais.

Auxílios visuais têm sido usados ​​em programas em muitas vezes, mas muitos deles são ilustrações e não códigos. Um código deve ser claro e os participantes devem ser capazes de se relacionar com ele. Um código mostra o problema sem resposta. O Teatro do Oprimido é um ótimo recurso para desvendar “códigos” que definem os problemas.

Reflexão e Ação

O processo de envolvimento com o desafio / problema é entendido como algo que não tem uma solução fixa. É caracterizado por ação e reflexão.

Uma vez que as comunidades conheçam e compreendam as causas profundas do problema, é importante planejar a ação a ser tomada.

É preciso agir a partir do problema que a comunidade enfrenta para eliminar a frustração. Planejar a ação depende da discussão em grupo, experiência e energia .

O planejamento da ação deve considerar o seguinte:

a) ligar o tema / problemas a outros temas que eles discutiram
b) aprofundar o estudo
c) iniciar um projeto com autoconfiança
d) pressionar por mudanças.

Nenhuma educação é neutra

Como assim não há educação neutra? Todos nós somos condicionados pelas nossas experiências de vida e é importante que analisemos criticamente como estes afetaram os nossos valores e os nossos juízos.

“A educação popular significa literalmente a educação com o povo e para o povo. Como prática educacional, os facilitadores ajudam as pessoas através da análise e discussão de sua própria situação diante de problemas como a desigualdade, a discriminação e a destruição ambiental ”.

Carlos Nunez Hurtado, What is Popular Education?inHRE/Campaigning for Human Rights Education? pg 6, September 2005.

Todo processo de educação traz consigo uma bagagem ideológica, e é importante que o facilitador escolha seu posicionamento e deixe claro para a comunidade em que participa qual é a sua posição. Buscar pela neutralidade é se eximir da responsabilidade de se tornar um agente da transformação.

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 1987

Hope, Anne. Timmel, Sally. Training for Transformation; A handbook for Community Workers. 1995

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