Seção 9, Tópico 9
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A arte de pedir aquilo que enriquece a vida

Ravi Resck 1 de agosto de 2021
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Uma vez que aprendemos a separar nossas observações das avaliações, identificar os sentimentos que estão por trás das mesmas e associá-los com uma necessidade que foi ou não foi satisfeita, chegamos ao quarto compomente da CNV. É hora de transformar todo esse processo em um autêntico pedido que manifesta as nossas necessidades da forma mais empática possível.

Use uma Linguagem Positiva

A tendência natural ao manifestar os nossos pedidos em relação ao que gostaríamos que mudasse dentro das nossas relações é dizer para as pessoas não fazerem isso ou aquilo.

O interessante é que o nosso cérebro não processa sentenças negativas, por mais que você se esforce para fazer isso. Por exemplo, se eu disser “Não pense em uma banana”… Você consegue evitar pensar em uma banana? Provavelmente não.

É por essas e outras que ao fazer um pedido que vai sumarizar todo o processo dos 3 passos que trabalhamos anteriormente é muito mais vantajoso focar naquilo que queremos e precisamos para satisfazer as nossas necessidades.

Quando formulamos pedidos de uma linguagem clara e de ações concretas deixamos muito pouco espaço para dúvidas.

Uma linguagem vaga vai apenas abrir mais espaço para confusão interna.

Vamos examinar um exemplo.

Considere um caso em que uma mãe está incomodada com o filho porque ele não faz as tarefas de casa e tampouco ajuda nos afazeres domésticos básicos como arumar a cama e lavar o prato depois de comer.

Ela pode simplesmente chegar ao filho e dizer: “Eu não aguento mais essa preguiça. Preciso que você seja mais responsável!”.

Aqui não está nada claro o que o filho precisa fazer para de fato se tornar alguém responsável de acordo com os critérios da mãe.

Se fôssemos expressar a mesma coisa usando os 4 elementos da CNV esta frase poderia ficar assim: “Filho, quando vejo a forma como você está agindo com as suas obrigações escolares e o cuidado com a casa me sinto frustrada porque preciso saber que você será uma pessoa independente que consegue se organizar e manter o seu espaço harmonioso. Você poderia por favor prestar mais atenção ao seu espaço, arrumar a sua cama, lavar a louça após comer e se esforçar para fazer os deveres de casa da sua escola? Estou aqui para te ajudar caso precise de qualquer coisa”.

Pedidos Conscientes

A linguagem é realmente um fenômeno interessante. Podemos pedir coisas sem necessariamente fazer um pedido. Você provavelmente já ouviu alguém dizer simplesmente algo como “Estou com sede!” para pedir um copo dágua, por exemplo.

Neste caso pode até funcionar. Mas há aqui um grande risco de ser mal compreendido e ter os nossos pedidos a soar como ríspidas exigências.

Quando simplesmente expressamos nossos sentimentos ou necessidades, o pedido pode não ficar claro para o ouvinte.

Um simples exemplo oferecido por Rosenberg é o de uma mulher que diz ao seu marido: “Estou aborrecida porque você se esqueceu da manteiga e das cebolas que lhe pedi que comprasse para o jantar”.

Será que ela está a dizer ao marido que volte ao mercado e compre a manteiga e as cebolas ou está simplesmente a desabafar de forma a fazê-lo se sentir culpado?

Pode parecer estranho, mas na verdade é bem comum não termos consciência do que estamos pedindo.

Quanto mais claro formos acerca do que queremos obter, mais provável será que o consigamos.

Marshall Rosenberg

Pedindo um retorno

É importante aprender a pedir feedback das pessoas que vivem e trabalham conosco. Uma forma muito simples de avaliar a qualidade da nossa comunicação é realizar um pedido direto sobre a qualidade da nossa comunicação.

Às vezes basta perguntar algo como “Está Claro?” ou “Faz Sentido?”

Um próximo nível seria pedir para as pessoas repetirem com suas próprias palavras o que elas nos ouviram dizer. Este é um “exercício espelho” muito interessante que nos ajuda a perceber o que é que realmente está a chegar ao outro lado.

Muitas vezes as pessoas ouvem o que nós estamos a dizer e processam de acordo com as necessidades que não estão a ser supridas e manifestam um extremo descontentamento. Por isso é importante aprender a pedir um retorno para entendermos como as pessoas estão realmente a processar as nossas falas.

Lembre-se: Quando ouvir alguém a repetir o que você disse, por mais que seja diferente daquilo que você queria dizer, lembre de celebrar a versão apresentada pela pessoa. Agradeça pelo esforço em tentar expressar o que entendeu e melhore a sua mensagem de acordo com o feedback recebido.

Algumas vezes um pedido como esse pode ser recebido como uma afronta e temos que demonstrar empatia com a falta de disponibilidade das pessoas para repetirem aquilo que falamos.

Pedindo Honestidade

Após realizar tantos pedidos é normal ficarmos ansiosos para recebermos um feedback honesto sobre como as pessoas estão a se sentir em relação ao que foi pedido.

Geralmente queremos saber:

a) O que o ouvinte está sentindo: “Gostaria de saber como você está se sentindo sobre o que acabei de dizer e as razões para sentir-se assim?”

b) O que o ouvinte está pensando: “O que você acha do que acabei de dizer?”

c) Se o ouvinte está disposto a tomar determinada atitude: “Gostaria de saber se você está disposto a satisfazer este pedido?”

É importante receber qualquer resposta com empatia, seja ela negativa ou positiva.

Fazendo pedidos a um grupo

Trabalhar em grupos pode ser algo que traz uma sensação de cumplicidade marcante. No entanto, a capacidade de operar como um único organismo vivo e adaptativo é rara em um mundo onde competir é a primeira opção no menu de cada dia.

Muitos conhecem o fenômeno das “reuniões chatas e improdutivas” nos mais variados meios organizacionais: associações, empresas, cooperativas, escolas, governo, etc.

Aprender a realizar e receber pedidos em grupo é uma tarefa ardilosa, mas o que a cnv pode nos ensinar acerca disso?

Ao realizar um pedido para um grupo, clarifique o tipo de resposta que gostaria de receber.

Às vezes entramos em conflito simplesmente porque não identificamos a resposta que gostaríamos de obter acerca de uma proposta.

A pergunta geradora é “O que eu quero obter com esta proposta? Qual é o tipo de resposta que eu espero do grupo?”

Da mesma forma, quando alguém não está a ser claro também podemos perguntar: “Desculpa, estou um pouco confuso sobre a sua proposta. Você pode dizer que tipo de resposta espera de nós?”

Isso não vai resolver o problema das reuniões, mas é um início para que os participantes comecem a perceber o que esperam uns dos outros.

Na Índia, quando as pessoas recebem a resposta que queriam em um assunto que elas mesmas iniciaram elas tem uma palavra( “Bas” ) para indicar que já obteve a resposta. Este é um mecanismo de feedback interessante a ser explorado para que as conversas em grupo fluam com mais variedade e leveza.

Pedidos vs Exigências

Quando fazemos uma exigência disfarçada de pedido, as pessoas geralmente vão se sentir culpadas ou punidas se não atenderem.

Nós só podemos distinguir um pedido de uma exigência quando vemos a reação das pessoas a ter o seu pedido negado.

Uma pessoa que está a fazer uma exigência vai tentar fazer com que o outro se sinta culpado enquanto uma pessoa que faz um pedido autêntico teria uma reação empática com os sentimentos e necessidades do outro.

Pedidos autênticos são uma manifestação pura das nossas necessidades que algumas vezes nos torna vulneráveis em relação as outras pessoas. Saber receber um não é aprender a empatizar com as necessidades da outra pessoa que não estão a ser satisfeitas.

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