Seção 9, Tópico 3
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Coisas que fazemos que bloqueiam a compaixão

Ravi Resck 27 de fevereiro de 2021
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Para compreender a CNV em sua totalidade é importante observar os componentes que inibem o estado de compaixão dentro de uma relação. Marshall fez um excelente trabalho ao mapear os padrões inibidores deste estado compassivo. É algo que ele chama de “comunicação alienante da vida”.

Certas formas de comunicação nos alienam de nosso estado compassivo natural.

Marshall Rosenberg

Julgamentos Moralizadores

É importante saber avaliar as situações do nosso dia a dia. A capacidade de julgar pode nos proteger de situações que nos colocam em perigo e nos ajudam a avaliar se estamos a seguir o caminho certo.

O problema é que quando associamos esta capacidade de julgar com análises “morais” acerca das pessoas, estamos a colocá-las em caixas e fazer com que elas sejam reduzidas a uma míope perspectiva moral.

Esses julgamentos aparecem em frases como:

“Você é um preguiçoso!” , “Seu preconceituoso”, “Isto é completamente inadequado!” e por aí vai…

No mundo dos julgamentos, o que nos importa é QUEM “É” O QUÊ.

Marshall Rosenberg

É facil identificar esse tipo de julgamento no nosso dia a dia.

Lembro-me de uma experiência recente que tive em um workshop onde não me senti confortável com a organização do evento e comecei logo a queixar-me de uma forma totalmente moralizadora: “Que organização medíocre. Estas pessoas são mesmo atrapalhadas”.

O problema é que quando nos comunicamos assim estamos pensar em termos do que há de errado com os outros para se comportarem daquela maneira.

Nossa atenção se concentra em avaliar e determinar níveis de erro e não nas necessidades e valores pessoais que não estão a ser atendidas nem do nosso lado como no das outras pessoas.

Analisar os outros é, na realidade, uma expressão de nossas necessidades e valores.

Marshall Rosenberg

Rosenberg exalta a importância de saber distinguir juízo de valor de julgamentos moralizantes.

Nós todos fazemos juízos de valor sobre as coisas que admiramos na vida. Por exemplo, podemos valorizar a integridade, a transparência, a liberdade ou a paz.

Por outro lado, fazemos julgamentos moralizantes sobre pessoas e comportamentos que não estão de acordo com os nossos juízos de valor. Por exemplo: “A corrupção é algo inaceitável”, “A violência é ruim” e por aí vai.

Como nós não aprendemos desde cedo a exprimir nossas necessidades e valores, passamos a comunicar de uma forma violenta e trágica acerca das coisas que nos incomodam.

A medida que expandimos o nosso vocabulário emocional podemos começar a expressar as coisas como “Fico incomodado com a corrupção porque isso compromete a transparência entre o estado e a população. Valorizo a integridade e transparência das pessoas em cargos de poder. ”

Classificar e julgar as pessoas estimula a violência.

Marshall Rosenberg

Fazendo Comparações

Outro caminho possível para nos desconectarmos da compaixão ao nos comunicarmos é o uso de comparações.

Este se tornou um ato muito comum entre as pessoas que se tornam profissionais em reduzir a sua auto estima.

Dan Greenberg escreveu um livro chamado “How to make yoruself miserable” (Como tornar a si próprio um miserável) onde apresenta poderosos exercícios que nos fazem refletir como a idéia de nos comparar com alguém pode nos fazer sentir-nos medíocres e miseráveis.

Um dos exemplos clássicos é o do Mozart, o compositor. Ele enumera a quantidade de peças musicais e línguas que Mozart falava quando ainda era adolescente. Não é muito difícil se sentir estúpido ao se comparar com alguém como ele.

Muito além de nos auto-sabotarmos, as comparações também funcionam como um recurso altamente violento para fazer outras pessoas se sentirem miseráveis.

Negação de responsabilidade

Outro recurso que fundamenta as práticas que nos desconectam de uma comunicação autêntica é o de negação da responsabilidade.

Nós preferimos atribuir a responsabilidade dos nossos atos a outras pessoas, ao ambiente, a objetos… Qualquer coisa que não seja nós mesmos.

Dizemos que “tem que ser assim”, “não há outra maneira”, “era o que eu podia fazer” e outras variações.

Um outros clássico é o famoso “Você me faz sentir assim e assado”.

Eis aqui uma pequena lista retirada diretamente do livro de Rosenberg que mostra que estamos a nos eximir das nossas responsabilidades quando atribuímos a:

  • Forças vagas e impessoais (Limpei meu quarto porque tive de fazê-lo)
  • Nossa condição, diagnóstico, histórico pessoal ou psicológico(Bebo porque sou alcoólatra)
  • Ações dos outros(Bati no meu filho porque ele correu pra rua)
  • Ordens de autoridades(Menti para o cliente porque o chefe me mandou fazer isso)
  • Pressão do grupo(Comecei a fumar porque todos os meus amigos fumavam)
  • Políticas, regras e regulamentos institucionais(Tenho de suspender você por conta dessa infração; É a política da escola)
  • Papéis determinados pelo gênero, idade e posição social(Detesto ir trabalhar, mas vou porque sou pai de família)
  • Impulsos incontroláveis(Fui tomado por um desejo de comer aquele doce)

Nossa linguagem obscurece a consciência da responsabilidade pessoal.

Marshall Rosenberg

Negar a nossa responsabilidade pelo que sentimos e precisamos de fazer é um ato muito perigoso. É assim que grandes atrocidades foram justificadas ao longo do tempo. Catástrofes ambientais, holocaustos, violência doméstica, a lista é muito longa.

A abordagem proposta por Rosenberg aqui é mudar a nossa comunicação para que possamos de fato assumir a responsabilidade quando comunicamos os nossos atos.

Por exemplo, se temos a frase citada acima “Tenho de suspender você por conta dessa infração; É a política da escola” podemos transformá-la em “Tenho que te suspender porque desejo manter o meu emprego”.

É possível que quando uma pessoa passa a se comunicar assim possa achar horrível porque isso faz como nos sintamos responsáveis por aquilo que fazemos.
Se este for o caso, ótimo! Este é exatamente o objetivo deste exercício.

Alguns Lembretes

Naturalmente ainda existem muitas outras facetas da comunicação que nos desconectam de uma forma mais autêntica de se transmitir as nossas idéias.

Um hábito muito presente em uma sociedade que esqueceu de dar espaço para a compaixão é o de comunicar nossos desejos como exigências.

Isto é simplesmente infrutífero porque nós nunca conseguimos forçar as pessoas a fazer nada.

Quando estamos em uma posição de autoridade, seja como pais, chefes, professores ou o que for… Lembre-se de que há outra forma de comunicar os nossos desejos de forma que nos responsabilizamos por eles. Separe as suas necessidades pessoais das suas exigências.

Outra questão muito enraizada na nosssa sociedade é a idéia de que alguém merece ser punido pelo que fez. Quando damos força a este tipo de pensamento, afirmamos a idéia de que fulano agiu mal porque se comportou de tal maneira e por isso merece uma punição.

O pensamento baseado em “quem merece o quê” bloqueia a comunicação compassiva.

Marshall Rosenberg

A esta altura já podemos perceber que as raízes da alienação de uma comunicação inclusiva e compassiva são oríundas não só da desconexão dos seres humanos de um lugar de compaixão mas de todo um sistema filosófico e político que prega idéias sobre quem merece o quê, o que é certo e errado e quem deve obedecer a quem.

Reaprender a expressar nossos sentimentos e necessidades é um ato revolucionário dentro de uma sociedade que preza tanto por julgamentos moralizadores.

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