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6. Tédio, Ansiedade e Flow

Eddy 20 de setembro de 2022

Do que são feitos os momentos em que nos sentimos empoderados de tal forma que parece não haver limites para as nossas capacidades?

Momentos em que o engajamento é tão forte que a nossa noção do espaço-tempo é algo secundário. Viajamos em um transe hipnótico e nossas habilidades se manifestam por si só.

É como se o piano tocasse sozinho. Como se o quadro se pintasse, como se a obra fosse a criadora de si própria.

Este é o estado que chamamos de flow.

Tais estados de flow são um reflexo não de uma patologia ou a falta de algo, mas são, na verdade, o mais elevado estado criativo do qual os seres humanos são capazes. Csikszentmihalyi, psicólogo da Universidade de Chicago, que foi provavelmente o maior estudioso do estado de flow, sugere que há quatro atributos- chave que caracterizam este ‘fluxo’ criativo:

primeiro é uma absorção intensa e focada que faz você perder a noção do tempo

segundo é que é conhecido como ‘auto expressão’, o sentido de que a atividade em que está envolvido é gratificante para você mesmo.

O terceiro é encontrar o ‘ponto doce’, a sensação de que suas habilidades são perfeitamente compatíveis com a tarefa em mãos, não o deixando frustrado nem entediado.

São vários os fatores que influenciam na nossa capacidade de imersão profunda em um estado de alta produtividade.

O estado de flow depende da relação desafio x habilidade. O fluxo só será alcançado quando a tarefa é desafiadora o suficiente para manter o seu cérebro motivado, na mesma proporção que as suas habilidades são suficientes para enfrentar o desafio, sem torná-lo muito difícil.

  • Se o desafio tiver um nível alto e suas habilidades um nível baixo, você sente ansiedade;
  • Se o desafio tiver um nível baixo e suas habilidades um nível alto, você sente tédio;
  • Se houver um leve equilíbrio entre desafio e habilidade, você experimenta o estado de flow.

E aqui jaz o pulo do gato. É nessa relação entre o tédio e a ansiedade que a nossa motivação flutua e o nosso foco se perde. Uma possível abordagem para lidar com isso é se questionar acerca de algumas nuances.

Quando estamos ansiosos porque nossa tarefa é muito difícil

Será que devo revisar os conceitos básicos antes de prosseguir?

Estou subestimando a complexidade do que estou a fazer?

Quando ficamos entediados porque nossa tarefa é muito fácil

Será que eu devo insistir em algo que não me traz motivação?

Devo seguir para algo que me oferece um desafio maior?

Os estímulos que engatilham o estado de flow

Steven Kotler é um jornalista e escritor best-seller que fundou o projeto Flow Genome. Ele deu continuidade aos estudos de Csikzentmihalyi e mapeou várias descobertas sobre o assunto. Um dos seus estudos falam sobre os estímulos que podem atuar como “gatilhos” e nos sequestrar automaticamente para um estado de flow que nos propicia alta produtividade.

Há um total de 17 gatilhos organizados entre estímulos psicológicos, ambientais, sociais e criativos.

Os estímulos Psicológicos do Flow

Estas são estratégias internas que dirigem a nossa atenção para o AGORA e nos mantêm concentrados.

Atenção Intensamente Focada – Um dos objetivos primários do estado de flow é ajudá-lo a focar em uma tarefa específica. No entanto, para hackear este estado mental, nós temos que estar em uma posição que nos permite focar a nossa atenção em nossos objetivos. Isso também significa que realizar multi-tarefas está fora de questão. O flow exige uma ação singular e solitária.

Objetivos Claros – Quando você sabe o que tem que fazer, sua mente não precisa divagar sobre o que é preciso fazer em seguida. Você sabe o que está fazendo e o objetivo que te leva a fazer isso.

Resposta Imediata – Este estímulo é parceiro dos objetivos claros. Os objetivos dirão o que fazer, a resposta vai nos dizer como fazer melhor. Se nós conseguimos melhorar a nossa performance em tempo real, a mente não divaga em busca de pistas de como melhorar. Não pense, apenas faça!

A proporção entre Habilidade/Desafio – Como já foi apresentado acima há um conceito muito explorado sobre a curva de estresse onde há uma escala de baixo estresse e baixa performance. No outro lado temos a escala de alto estresse e baixa performance, mas no meio da escala temos o nível perfeito de estresse relacionado com o pico da nossa performance. O gatilho da relação entre a habilidade que nós temos e o desafio proporcionado pela tarefa que estamos executando reside em uma linha tênue entre o tédio e a ansiedade. Nós precisamos de um equilíbrio progressivo entre o tédio e a ansiedade ou tensão e relaxamento.

Estímulos Ambientais

Estes gatilhos são todos externos. Eles nos rodeiam fisicamente e funcionam como um veículo de aprofundamento no flow.

Sérias Consequências – Se você corre riscos, você está sendo sugado para o fluxo. A idéia das consequências varia de acordo com a nossa perspectiva de seriedade sobre as tarefas em que nos engajamos. Um atleta experiente pode precisar de um desafio absurdamente arriscado para ativar esse gatilho, mas uma pessoa tímida, por exemplo, só precisa tentar falar em público, ou tentar falar com uma garota para ativar esse estímulo. O risco a ser corrido pode ser emocional, mental ou social. Você tem que estar disposto a correr riscos. Esse vai ser o gatilho que inicia a separação de uma zona de conforto e dá início à jornada do herói ou heroína.

Um ambiente rico – Isso significa estar em um ambiente cheio de novidades, imprevisibilidade e complexidade(uma floresta, por exemplo). A surpresa nos rodeia com um rico ambiente que envolve aprender sobre coisas que vão chamar e manter a sua atenção. A imprevisibilidade significa estar apto a sair da sua zona de conforto e enfrentar o desconhecido. E a complexidade significa aumentar a profundidade do seu conhecimento procurando informações de muitas fontes e variadas perspectivas.

“Deep Embodiment” – O título em inglês expressa o que isso significa tão bem que preferi manter assim. “Deep” quer dizer profundo e Embodiment algo como incorporamento, no sentido físico da palavra. É aquele estado de total consciência corporal. Quando você consegue concentrar o poder de todo o seu corpo e ao mesmo tempo prestar atenção nas suas missões. É um sentimento de super herói, que nos dá a sensação de sermos invencíveis. Isso também significa que você está prestando atenção a diferentes fluxos sensoriais ao mesmo tempo.

Estímulos Sociais

Até agora focamos em estímulos que afetam o indivíduo, tanto interna quanto externamente. Agora vamos examinar os gatilhos que podem levar a entrar em um estado de flow em grupo.

Concentração levada a sério – Em esportes extremos, por exemplo, a concentração é altamente requerida ou alguma coisa muito séria – até mesmo a morte – pode acontecer. Você precisa estar ciente dos seus colegas e oponentes. Se eles perdem o foco e começam a pensar sobre problemas com a namorada, sobre o que vão comer, eles vão ser rapidamente vencidos. Priorizar a concentração pode parecer algo óbvio, mas pouquíssimas pessoas fazem isso conscientemente.

Objetivos Comuns – Para alcançar um estado de flow em grupo, é absolutamente necessário identificar o que é que nos motiva enquanto coletivo. Se não temos clareza em nossos objetivos coletivos, vamos rapidamente esquecer o que nos mantém unidos. O flow do grupo é algo progressivo, e os objetivos comuns podem ser encontrados através de brincadeiras, perguntas geradoras, sessões de brainstorming e conversas.

Comunicação Eficaz – Para funcionar bem, todo grupo precisa de uma comunicação constante. As conversas devem seguir para caminhos inesperados. Precisamos praticar a “Escuta Profunda”, e participar de uma forma quase artística na dinâmica do grupo. Imagine que um grupo é uma big band de jazz e nós todos somos músicos que precisam estar altamente focados e presentes para improvisar em tempo real durante o nosso concerto.

Familiaridade – Uma equipe pode ser composta de pessoas que têm diferentes línguas, culturas e crenças, mas todos precisam se familiarizar entre si. É preciso haver uma unidade, um sentimento de pertencimento. Se esta conexão é garantida, quando as surpresas aparecem nós conseguimos reagir como um cardume que muda sua direção de forma instantânea.

Participação e Habilidades Equilibradas – A idéia de um centro vazio contribui e muito para a divisão de tarefas em um projeto. O flow acontece quando todos fazem exatamente aquilo que se sentem capazes de fazer e todos têm a sua participação apreciada. Trabalho em equipe é a chave, e todo mundo deve estar envolvido.

Risco – O risco é aplicado para o grupo assim como o indivíduo. Como vimos anteriormente, as consequências, o nível de dificuldade e a pressão vão fazer com que o grupo trabalhe duro para alcançar seus objetivos. Não há processo criativo sem falha, e não há flow sem o risco de falhar. Lembrando que esse risco pode ser físico, mental, criativo, social, etc.

Senso de Controle – É importante combinar a autonomia(ser livre para fazer o que quiser) com a competência(ser bom no que faz) em um estado de flow coletivo. Isso nos empodera e possibilita uma viagem em direção ao caos de forma segura. Assim, podemos tirar as coisas do controle com segurança.

Escuta Profunda – Kotler chamava este item de “Close Listening”. Aqui prefiro relacionar com a idéia do Pinakarri,uma palavra aborígene que representa a idéia de escuta profunda, ou escuta ativa. Quando um diálogo acontece, o sistema coletivo tem a capacidade de observar a si mesmo. Assim, naturalmente, não teremos mais de uma pessoa a falar ao mesmo tempo. Novamente podemos recorrer à metáfora da big band de jazz.

Sempre Diga Sim – Não vá confundir esse gatilho com dizer sim para tudo. Isso quer dizer que as interações devem buscar ser generativas, colaborativas, e não argumentativas. Este gatilho se relaciona com abandonar os velhos padrões e estar aberto a novas idéias, mesmo que elas não pareçam ser muito boas a priori. A nossa participação deve ser artística, inspirada, e não negativa e ranzinza. O objetivo é o caminho e o caminho nos leva ao objetivo.

Estímulos Criativos do Flow

A criatividade estimula o flow e o flow aprimora a criatividade.

Reconhecimento de Padrões – O cérebro tem uma habilidade natural de reconhecer padrões, cores, informação, formas, movimentos, sons, conceitos, sucessos, riscos, falhas e etc. A capacidade de abstração é uma ótima ferramenta para conectar idéias. Isso pode sempre engatilhar um Ahá e automaticamente abrir a porta para um poderoso estado de flow.

Correr Riscos – Mais uma vez, a idéia do risco está sempre presente no processo de flow. É preciso ter coragem para dar vida a novas idéias. Qualquer processo criativo requer coragem para aceitar o chamado de uma aventura que vai nos levar a lugares nunca explorados.

A natureza do foco

Tomar consciência da natureza arquetípica do flow é o primeiro passo para direcionar o nosso foco para esse estado mental. Quando identificamos os padrões que compõem a estrutura do nosso ritmo de produção, começamos a observar com mais atenção o nosso momento presente e a relação da nossa mente e das nossas emoções com o nosso corpo.

Mas quando vivemos em plena era de informação, onde somos bombardeados com e-mails, sms, telefonemas, whatsapp, facebook, fake news e outros estímulos que foram desenhados especificamente para prender a nossa atenção o maior tempo possível, a pergunta que fica é: Como manter o foco?

Como podemos hackear o presente? E por que isso sequer deveria ser necessário?

O foco indica onde estamos a direcionar a nossa atenção, e a atenção é um músculo mental, que pode e deve ser exercitado.

Na realidade, estamos a exercitá-lo o tempo todo, mas a maior parte deste valioso tempo é totalmente involuntária. A nossa atenção se torna refém de um foco não direcionado, o que nos leva a divagar e esquecer dos propósitos que nos levam ao caminho da auto-realização.

Daniel Goleman realizou uma extensa pesquisa sobre a natureza do foco e em seu livro “Foco – O motor oculto da Excelência” ele aponta conceitos básicos que podem ser utilizados para criar um modelo do foco.

Assim, ao compreender os padrões neurológicos e comportamentais da nossa psique, podemos ativamente direcionar o nosso foco para aquilo que realmente importa.

Distrações sensoriais e emocionais

É fácil perceber como funcionam as distrações sensoriais. Quando tocamos o palato com a nossa língua, quando estamos lendo e focamos nas bordas do livro, quando focamos em sons de fundo, enfim, tudo que for relacionado com os nossos cinco sentidos está nesta categoria.

As distrações emocionais, por outro lado, geralmente aparecem do nada e nos pegam desprevenidos.

Alguma vez lhe aconteceu de estar em uma tarefa, tal como realizar uma pesquisa, ou navegar a internet, e alguém menciona o seu nome em uma conversa ao lado da qual você não participa?

O que acontece com a sua atenção neste momento? Na maioria dos casos é direcionada automaticamente para a conversa. A mente faz isso porque entende que isso pode ser uma “isca” emocional em potencial. É quase impossível se desligar do que os outros estão falando sobre nós.

O maior desafio, mesmo para os mais focados, é se desvencilhar dos estímulos emocionais que estão sempre lá, aguardando para sequestrar o nosso foco. Pensamentos como relações amorosas, coisas que nós deveríamos ter respondido de tal maneira, coisas que nos deixam furiosos, críticas e outras peripécias do nosso corpo emocional vão se manifestar e compor o cenário que chamamos de distração emocional.

Uma vez que o foco exige que as distrações emocionais estejam em segundo plano, as nossas conexões neurais que possibilitam a atenção seletiva incluem uma função inibidora de emoções.

Se não conseguimos realizar essa gestão emocional, corremos risco de entrar em um ciclo, um loop, de ansiedade.

Temos 800 mil pessoas que escolhem tirar as suas vidas a cada ano que não sabem lidar com as distrações emocionais.

É um cenário impactante, mas pode ilustrar o quão importante é desenvolver a nossa inteligência emocional.

Isto também implica uma altíssima onda de superficialidade em termos de aprofundamento por parte da população. Nunca se escreveu tanto, tão errado e se interpretou tão mal antes dos tempos em que vivemos hoje, diz Otávio Pinheiro.

Goleman faz um questionamento hilário acerca de Heidegger, que tanto falou sobre esta possibilidade de perdermos a capacidade de reflexão profunda, quando imagina sua reação se Heidegger vivesse hoje e fosse convidado a entrar no Twitter. Se ele estivesse vivo hoje, ficaria horrificado! – Diz Goleman.

Será que a nossa atenção encolheu?

George Miller propôs o que ele chamava de “número mágico” quando apresentou sua teoria de como os seres humanos processam a informação.

O modelo de Miller afirmava que nós podemos focar conscientemente em até 7 grupos de informação ao mesmo tempo. E com sete grupos de informação eles querem dizer basicamente que prestamos atenção em até sete “ pedaços” de informação por vez. Tudo isso acontece muito rápido e o nosso cérebro tem um sistema próprio para gerenciar os bitsde informação.

Isto indica que é como se nós tivéssemos um buffer, uma capacidade predefinida, de processar informação. A idéia de multitarefa também se provou ser um tanto equivocada. O que acontece na verdade é que o nosso cérebro é um super computador que tem alta capacidade de processamento e muda o nosso foco em tempo real, o que dá a impressão de que estamos a realizar mais de uma tarefa ao mesmo tempo.

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